Os carreiros aproximavam a vizinhança, abreviavam distâncias e davam cobertura às fugas. Por vezes, em caminhos enviesados, os carreiros de ontem transportavam mercadorias, notícias, sonhos e fantasias. Não conheciam fronteiras.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
SEBASTIÃO MAGALHÃES LIMA. UMA REFERÊNCIA
[Magalhães Lima, Sebastião] "Muitas vezes me sinto estranho na actual sociedade,
tão diversa da minha. Ante o impudor e o cinismo que lavram, sinto-me feliz por
ter conservado as qualidades de honradez e de nobreza moral que herdei de meu
Pai. O que se passa em redor de mim compunge-me. A política, que tive sempre
por um apostolado, tornou-se negócio. E, como dizia o grande Junqueiro:
«Isto de consciência e de coração tranquilos são
coisas para fazer estilo, metáforas e mais nada …»
Já é tarde para mudar."
…
Magalhães Lima, Episódios da minha Vida (Memórias),
(volume I), Perspectivas & Realidades, Lisboa, s/d.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
... "a linguagem e a mentira das coisas"
…
«[ …] Que doces coisas são os sons e as palavras! Não serão
os sons e as palavras os arcos-íris e as pontes ilusórias que estabelecem a
ligação entre o que está eternamente separado?
Todas as almas têm um mundo seu; para cada uma delas, a alma
de outrem é um mundo transcendente.
É entre aqueles que estão mais próximos que a ilusão faz cintilar
as suas miragens mais belas; porque o abismo mais estreito é o mais difícil de
transpor.
Como poderia haver para mim um não-eu? Não há mundo exterior.
Não foram os nomes e os sons dados aos homens para terem prazer nas coisas? A
linguagem é uma doce loucura; falando, o homem evade-se e dança para lá das
coisas.
Como são doces, a linguagem e as mentiras das coisas! O nosso
amor dança com os sons em arco-íris matizados.»
_____________
in Nietzsche, Assim Falava Zaratrusta, [O convalescente],
Guimarães Editores, Lisboa, 2007
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
VAMPIROS (ZECA AFONSO) 'Eles comem tudo ...'
No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada
Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada
Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas
São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
No chão do medoChegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas
São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada
Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
-----
Créditos da imagem para BLOGUETRIFORMIS
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
LER - Medidas que vêm de longe ...
IV
«Criem-se, nos mesmos logares, escolas de adultos, em que os homens de trabalho, que desejem aprender a lêr, escrever e contar, venham á noite receber licções gratuitas de qualquer pessoa zelosa do bem publico, que dessa tarefa se queira encarregar por seu turno.
Para completar esta util idéa, criem-se tambem gabinetes de leitura, em que aquelles, que souberem lêr, possam nas compridas noites do inverno dar pasto á sua curiosidade. Estas pequenas bibliotecas populares devem conter um certo numero de publicações periodicas, semanaes ou annuaaes, e outras obras de pequeno custo fornecidas pelo EStdo: tudo escriptos de util e variada licção - que fallem ao espirito, ao coração e aos olhos.»
...
NOGUEIRA, José Félix Henriques (1823 - 1858)
Estudos sobre a a reforma em Portugal - Lisboa. Typ. Social, 1851; 2 v. pg. 173/174.
(grafo da época)
90
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Lengalenga . (contagem pelos dedos)
Una
Duna,
Tena,
Catena,
Forreca,
Chirreca,
Vira,
Virão,
Conta bem,
Que dez são.
Duna,
Tena,
Catena,
Forreca,
Chirreca,
Vira,
Virão,
Conta bem,
Que dez são.
...
(há mais variantes).
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
António José Forte "... escreveu pouco .."

António José
Forte (1) (1931-1988) poeta surrealista,
“…escreveu pouco, talvez apenas o necessário para deixar vincada a sua presença
e ter a certeza de haver «gente que nunca escreveu uma linha que fez mais pela
palavra que toda uma geração de escritores»”, (2)

“Os poetas, os reformistas, os reaccionários, os
progressistas arregalarão os olhos e em seguida hão-de fechá-los de vergonha.
Fechá-los como têm feito sempre, afinal, em seguida mergulharem nas profecias.
Olharem para a parte inferior da própria cintura e em seguida fecharem os olhos
de vergonha. Abandonarem-se desenfreadamente à carpintaria das suas tábuas de
valores, brandirem-se por cima das nossas cabeças como padrões para a vida,
para a arte, para o amor e em seguida fecharem os olhos de vergonha às
manifestações mais cruéis da vida, da arte do amor".(3)
___________________
(3) in Forte, António José. Corpo de Ninguém. Hiena. Lisboa.1989...[Uma
Faca nos Dentes. p. 39]
Nota: Um bem-haja pela colaboração recebida.
sábado, 18 de dezembro de 2010
BOAS FESTAS 2010/2011
Não nos iludamos. Ou nos salvamos nós, ou ninguém nos salva.
...
O messianismo em Portugal fez as suas provas e faliu.
(in Manuel Laranjeira,
O Pessimismo Nacional ou de como os portugueses procuram soluções de esperança em tempos de crise social,
Padrões Culturais Editora, Lisboa, 2008)
(amplia, clicando sobre a imagem)
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
«O SENHOR ACONTECE» 18.04.1944 – 15.12.2010
Carlos Nuno de Abreu Pinto Coelho
18.04.1944 – 15.12.2010
“E assim, ACONTECE”
Evoca-se o jornal cultural ‘Acontece’ (1994 – 2003) da RTP2, lamentavelmente extinto em ambiente polémico.
Entre condecorações e prémios distingue-se a atribuída pela França: Oficial da “Orde des Arts et des Lettres (2009)”.
*
*
"Anexo (1)
Missiva do funcionário do SBI-FCG António José Forte à
respectiva direcção sobre incidentes em Parada do Bouro (27-12-1960)
Fonte: Francisco, 1966. (Nb: transcrição da publicação
original no Boletim do Sindicato dos Encarregados e Ajudantes de
Bibliotecas de Portugal – Fevereiro 1991.)
Ex.mos Senhores:
Um bem triste e lamentável episódio interrompeu ontem,
dia 27, a marcha feliz e entusiástica que esta Biblioteca iniciou há pouco por
terras do Baixo Minho. Foi o caso de um abade que se nos atravessou no caminho,
não para suicidar-se. O que seria altamente honroso para ele, mas para apressar
o suicídio dos seus submissos paroquianos, boa gente, diga-se de passagem, mas
cegos como todos os suicidas involuntários.
«Estávamos nós estacionados em Parada de Baixo, terra
célebre nestas redondezas pelas suas laranjas e outras frutas, quando o pároco
da freguesia, zeloso da salvação das suas ovelhas, decidiu intervir. A
intervenção foi ridícula e teatral por um lado e pelo outro infame e de franca
má fé.
«Acusando-nos de estarmos a distribuir livros
protestantes, ameaçou os paroquianos de excomunhão ipso facto (foram palavras textuais do padre) caso ousassem levar
um único exemplar que fosse. E não contente com essa ameaça arrancou das mãos
de alguns leitores as obras já requisitadas e atirou-as ao chão que, por sinal,
estava um pouco enlameado. Em seguida, e para intimidar-nos, exigiu que nos
identificássemos, o que recusámos gostosamente. Depois explicámos às pessoas,
não ao padre, que aquela Biblioteca se tratava de uma instituição legal, e que
pertencia à consciência de cada um escolher entre levar livros e devolvê-los.
Graças ao Diabo houve uma minoria que se manteve firme, não abdicando da vontade
própria, mas aos que estavam no que julgam ser a graça de Deus principiaram a
devolver os livros, e da maneira mais correcta possível, quer atirando-os ao
chão quer lançando-os para dentro do furgão. Claro que pelo padre estava a
maioria das mulheres que se não poupavam a insultos e ameaças, o que,
consequentemente, provocou uma atitude hostil por parte de alguns homens, os
quais, homens, ocasionalmente é verdade, pois regressavam do trabalho, traziam
ao ombro uma sachola de cabo bastante comprido. De modo que resolvemos retirar-nos.
A nossa próxima visita a Parada do Bouro está marcada
para 27 de Janeiro [1961] e é nossa firme intenção lá voltar. Mas não podemos
ir desprevenidos e por isso desejamos que nos autorizem a fazê-lo acompanhados
pela Guarda Republicana, ou que nos enviem armas. Desnecessário se torna,
naturalmente, sugerir que tentem proceder contra o padre (de sua graça Isac).
Por nós, participaremos hoje ou amanhã ao Presidente da
Câmara de Vieira do Minho o ocorrido.
Aqui a indignação é, pode dizer-se, geral. Os
correspondentes dos jornais Jornal de Notícias e Primeiro de Janeiro já
enviaram notícias de protesto. Nós prosseguiremos.
Atentamente.
Vieira, 28 de Dezembro de 1960.
António José
Forte"
*
“E assim, ACONTECE.
Até amanhã!” (Carlos Pinto Coelho)
___________
Créditos da imagem para http://peticao-rtp2-cinema.blogspot.com/2010/12/carlos-pinto-coelho.html
(1) in Melo, Daniel de, A Leitura Pública no Portugal Contemporâneo (1926-1987), Lisboa ICS (Imprensa de Ciências Sociais, 2004, pp.355-356.
- um agradecimento a drmpd.
sábado, 11 de dezembro de 2010
... muito provavelmente Porque era sábado (Vinicius de Moraes - o dia da criação)
Foto: Marcos Renkert
O dia da criação,
Vinicius de Moraes
(…)
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado
III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens,
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como
as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na
terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda
e missa de
sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das
águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em [cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e [sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
domingo, 5 de dezembro de 2010
"Os nossos dias fogem ..."
Os nossos dias fogem tão rápidos como água do rio
ou vento do deserto.
Entretanto, dois dias me deixam indiferente:
o que passou ontem e o que virá amanhã.
Omar Khayyam, (versão Fernando Couto),
Joaquim Pessoa (organizou), Herdeiros do Vento, Antologia Apócrifa, Litexa, 1984
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
RENOIR AMAVA O HOMEM, A LUZ E A NATUREZA INFINITA(1)
Ao Piano, de Renoir (fragmento) Quadro comprado pelo Governo Francês.
«Tanto na arte como na natureza, aquilo que tomámos como inovação é, no fundo, uma continuação mais ou menos modificada do antigo», Renoir. (1)
______________
(1) in Peter H. Feist, Pierre-Auguste Renoir, (1841 - 1919) 'Um Sonho de Harmonia, Taschen Público (nº 8), 2003
3 de Dezembro - DIA INTERNACIONAL DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
“O
Dia Internacional das Pessoas com Deficiência assinala-se hoje, quando a
maioria destes cidadãos continua excluída do exercício de direitos e é
discriminada no acesso em condições de igualdade ao ensino, emprego, habitação
e transportes.”
aqui
+
+
Lusa / SOL
Noticia - Jornal SOL nal Sol: http://sol.sapo.pt/Solidariedade/Noticias/Interior.aspx?content_id=118627
Site - CNOD: http://www.cnod-deficientes.org/
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
FERNANDO PESSOA , Pois v. não vê que ...
Fernando Pessoa
13 junho 1888 – 30 novembro 1935
(…)
Pois v.
não vê que para esta gente o perceber v. precisa escrever como o Dantas, como
o Alfredo Cunha, como ...
Pois v.
não vê que para esta gente o apreciar v. precisa ou fazer conferências ou
plagiar como o J. de B., asnear na capital como o Manso que veio de Coimbra.
Pois v.
não vê que para esta gente o elogiar v. tem de andar a bajulá-los na rua e nos
cafés, como fazem os Dantas, os Cunhas, os Sousa Pintos?
Depois –
pior ainda – v. escreve europeiamente!
(…)
_________________________________
(…)
Fernando Pessoa, Correspondência (1905 – 1922), Fragmento da carta nº 39 dirigida a Mário de Sá Carneiro´, edição Maria Parreira Serra, Assírio & Alvim, 1999.
Subscrever:
Mensagens (Atom)